A natureza nos fornece exemplos interessantes de
como as pressões ambientais são indispensáveis para a expressão de
características físicas e comportamentais. Vejamos o exemplo do inocente
louva-a-deus que regularmente concretiza o sacrifício último do sexo: seus
próprios corpos. Estes insetos permitem a auto canibalização em rituais
macabros de acasalamento aonde sua companheira começa devorando vagarosamente
sua cabeça á fim de impedir que outros machos concretizem a desejada cópula.
Com isso, garantem a transferência do material genético selecionado para a
próxima geração em acordo mútuo realizado entre o macho, que aceita ser
devorado, e fêmea, que escolheu a outra parte dos genes de sua prole baseado em
características físicas ou comportamentais do companheiro. Este
privilégio feminino de selecionar parceiros para garantir um prole bem sucedida
é tema de profundas investigações que debatem inclusive a possibilidade de
fêmeas promíscuos serem capazes de selecionar os espermatozóides dos machos
mais aptos após cópulas sucessivas. Para fins de conquista e sedução, a
natureza emerge com eventos bizarros e vicissitudes singelas. Aranhas também
morrem por sexo, mas a seleção sexual pode envolver também cantorias apaixonantes
ou danças eróticas e vigorosas entre pássaros ou ainda, permitir o surgimento
de penas tão coloridas como as apresentadas pelo pavão que se exibe para fêmea.
Parece-nos evidente o custo energético envolvido em cada uma destas situações
mas a contrapartida é a perpetuação do material genético afinal, a única coisa
que importa para nossos genes egoístas.
Neste contexto, a conquista do alimento sempre foi uma necessidade
imprescindível à sobrevivência de todos os animais. É possível que tenham
existido espécies que selecionaram suas habilidades de caça para assegurar a
conquista de suas fêmeas. Assim, os seres humanos, apesar de estarem longe de
ser os mais fortes e os mais rápidos poderiam apresentar alguma vantagem física
que os diferenciasse dos demais animais e que garantisse um certo sucesso nas
investidas em busca de alimentos. Mais ainda, tal sucesso pode ter garantido
noites de sexo em troca de alimentos e a seleção de genes mais aptos que
reforçaram estas capacidades possibilitando uma maior disponibilidade de
alimentos imprescindível para o crescimento do córtex cerebral.
Atualmente,
alguns autores vem propondo que uma das principais qualidades físicas que
nossos ancestrais hominídeos apresentavam era exatamente a resistência aeróbica
acoplada a uma incrível capacidade de regular a temperatura corporal. Animais
sociais mais resistentes do ponto de vista aeróbico, podem ter seguido
incansavelmente outros animais jogando pedras e fugindo diante de investidas
revanchistas, identificando momentos oportunos de distração de grandes
predadores sobre suas presas já vencidas, ou mesmo disputando a carniça
apodrecida com abutres e hienas.
O bipedismo proporcionou além da melhoria da
visão de longo alcance capaz de identificar rapidamente carcaças em meio ás
savanas e da liberdade das mãos utilizadas para trazer estes alimentos de volta
para casa, um diferencial na capacidade de termorregulação humana. Ao retirar a
região dorsal da exposição contínua do sol, situação comum nos quadrúpedes,
nossos antepassados, reduziram enormemente os efeitos de super-aquecimento
verificados no calor africano permitindo uma exposição mais prolongada ao sol
intenso do meio do dia, enquanto predadores mais fortes descansavam em baixo da
sombra das árvores. Mais tarde, perdemos os pêlos do corpo e desenvolvemos
glândulas especializadas capazes de garantir através do sacrifício de plasma a
formação de suor. Humanos são os únicos que apresentam ampla resposta de
sudorese que os permitiria engajar em intensa atividade física exposto a calor
de sol intenso. A maior parte dos seres vivos desenvolve mecanismos para
conservação de água. O sacrifício de água neste sentido, deve ter contribuído
para alguma vantagem muito significativa!
O sucesso
nas mencionadas caçadas pode ter facilitado o processo de desenvolvimento do
cérebro que nos tornaria animais racionais e criadores de cultura e tecnologia.
É provável que naquela época o rendimento aeróbico já dependesse de alguns
critérios até hoje fundamentais: capacidade máxima de utilização do oxigênio
(VO2 máximo), eficiência mecânica e limiar anaeróbico.
Os limites genéticos estabelecidos para aumento
do número e tamanho das mitocôndrias, para ampliação da rede vascular e para
hipertrofia do miocárido, todas adaptações aeróbicas ainda observadas em
humanos submetidos a alto nível de treinamento aeróbico, parecem depender dos
limites morfológicos estabelecidos pela própria célula. Assim, um coração
normal poderá se desenvolver funcionalmente até um tamanho ainda compatível com
a condução de estímulos elétricos ou ainda, uma fibra de contração lenta,
poderá aumentar seu volume mitocondrial até os limites estabelecidos pela
dimensão da própria célula. O VO2 máximo, produto do débito cardíaco máximo
pela diferença artério venosa máxima, não aumenta apenas 15% após a puberdade
conforme se acreditava a cerca de 20 anos atrás. Com os conhecidos processo de
hipertrofia ventricular esquerda, angiogênese de capilares e arteríolas e
aumento do volume mitocondrial, conseguimos ampliar a capacidade de transporte,
distribuição e utilização de oxigênio a níveis nunca imaginados pelos
investigadores e freqüentemente verificado entre indivíduos que são submetidos
a programas bem delineados de treinamento aeróbico. Tais adaptações podem ter
estado presentes em tempos remotos do passado conferindo benefícios na luta
pela sobrevivência e habilidades genéticas específicas reforçadas pela seleção
sexual.
Talvez o fator que influencie significativamente o rendimento aeróbico que
melhor possa ser modulado pelo treinamento seja o limiar anaeróbico. Definido
como um valor percentual do VO2 máximo, o limiar anaeróbico estabelece o quanto
da reserva aeróbica efetivamente pode ser utilizado pelo organismo humano
durante o exercício. Em atividades físicas de alta intensidade, utilizamos um
grande número de fibras de contração rápida com elevada capacidade glicolítica
tornando portanto, inerente a produção metabólica de lactato e próton de
hidrogênio. O acúmulo do último no interior da célula é capaz de reduzir o pH
da mesma provocando dor e fadiga e é exatamente por isso, que animais velozes
não conseguem perseguir suas presas por mais do que 60 segundos. Como esta
situação deve ser evitada a todo custo entre hominídios caçadores, do contrário
seríamos presas fáceis nos campos das savanas, era necessário remover
rapidamente o lactato produzido. Tal processo em animais com capacidade
glicolítica limitada como os seres humanos, depende em menor parte da difusão
do lactato e de seu próton para o sangue, aonde o primeiro será conduzido ao
figado e convertido em glicose através do ciclo de cori e o último será
tamponado pelos íons bicarbonato. O principal destino do lactato produzido
durante o exercício nas fibras glicolíticas é no entanto, a difusão para as
fibras de contração lenta, lançando (através da formação de nova molécula de
piruvato), lactato e prótons de hidrogênio, respectivamente para o ciclo de
krebs e fosforilação oxidativa.
Assim se ampliarmos a capacidade de remoção do
lactato, poderemos suportar também, uma maior produção durante o exercício
prolongado permitindo com isso, a adoção de velocidade mais intensa de
exercício. Desta forma, é fácil compreender porque níveis elevados de limiar
anaeróbico dependem do grau de adaptação aeróbica das fibras de contração lenta
característica que torna indispensável a incorporação de metodologias que
priorizem o volume de treinamento. De fato, o sucesso dos corredores africanos
em provas de fundo no atletismo é em grande parte dependente das condições
culturais que os impele a percorrer grandes volumes de corrida desde a infância
possibilitando o desenvolvimento de alterações musculares, mitocôndriais
e vasculares que os tornam fisiologicamente diferentes dos demais.
Idealizado
por Emil Zatopek, o treinamento intervalado apresenta-se como a melhor
metodologia para incrementar o limiar anaeróbico.Tais sessões deveriam durar em
torno de 40-60 minutos e serem realizadas duas vezes na semana em intensidade
compatível com a velocidade de limiar anaeróbico e com intervalo limitado que
inclua recuperação ativa, provendo os estímulos necessários para acelerar a
remoção do lactato produzido. Tais procedimentos no entanto, depletam em até
80% as reservas de glicogênio intramuscular e portanto, necessitam de urgente
reposição de carboidratos á fim de possibilitar completa recuperação entre
sessões. É um erro acreditar que a dieta dos corredores africanos é deficiente.
Se isso fosse verdade, não teriam condições de manter o nível de treinamento e
competitividade já observados. Na verdade, alimentam-se do essencial, com bases
fundadas em amido, frutas, leite e carne.
Ainda hoje presenciamos tribos
primitivas como os caçadores Kung que seguem girafas por cinco dias correndo
cerca de 30Km por dia, até que a mesma esteja exausta e seja facilmente
derrotada. É fácil imaginar um grupo de hominídeos perturbando um predador
voraz no ímpeto de comer sua presa, realizando investidas que determinavam
forte velocidade de reação do grupo de hominídeos correndo a toda velocidade
por suas vidas e diante da desistência do predador, retornavam insistentemente
a perturba-lo até que vencido pelo cansaço desistisse da presa ou ele mesmo se
tornasse vítima desta espécie persistente e até então unida e organizada. De
fato, a organização social dos hominídeos aliada à capacidade aeróbica
desenvolvida e de termorregulação diferenciada, pode ter permitido a conquista
de animais mais fortes. Não éramos capazes de correr a 100Km/h como os
guepardos, mas podíamos correr mais de 40Km sob o sol das savanas, feito que nenhum
animal é capaz de concretizar.